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vinho tinto

vinho tinto

05
Abr16

avc-r

Não sei porquê, mas a resposta deu-me a sensação que a doutora Mariana era boa pessoa. Não havia lá nada de especial, nada que me dissesse da personalidade da doutora.

 

Boa pessoa

 

04
Abr16

avc-r

Há, pelo menos, uma coisa em que a Margarida é insubstituível: no que, ainda, sinto. Não acredito que algum dia surja alguém que a substitua nisso. Suspeito que nisso nem que eu viva um milhão de anos vou encontrar alguém que a substitua.

Outra coisa que duvido é que venha a conhecer alguém capaz da entrega que a Margarida me dedicava. Uma coisa é essa entrega começar antes do AVC, aumentar com o AVC e prolongar-se para além dele. Outra, completamente diferente, é começar depois do AVC. Se calhar estou a ser pessimista, mas conhecendo o que conheço de mim e das mulheres: as perspetivas não são boas.

04
Abr16

avc-r

Neste percurso, neste já longo percurso, tenho-me cruzado com pessoas fantásticas e deixado para trás outras que eu julgava amigas. Não condeno ninguém e sei que as pessoas têm a sua vida, mas paciência tem limites. Independentemente dos motivos de cada um – que, até prova em contrário, acredito existirem – nada me obriga a aceitá-los. É muito tempo. Nada de novo. Quase toda a gente que atravessa dificuldades se queixa do mesmo, mas deixem que vos diga isso não minimiza o sentimento de abandono. Não estou à espera de mudar muita coisa com este desabafo, até porque, agora que o escrevi, as ações são vãs, mas já que não pensam em mim pensem no que sentem as pessoas que me rodeiam ao verem-me quase sozinho. Tetraplégico e quase sozinho.

abandono

 

03
Abr16

diário

apesar do avc e da paralisia, sou um privilegiado. mantenho a que, para mim, é uma das capacidades mais importantes que temos: sermos nós próprios. a inteligência dá-nos a capacidade de nos adaptarmos, mas a capacidade de não o fazer, tentando não magoar quem quer que seja, é mais rara, complicada de obter e não se consegue com inteligência. essa capacidade é, demasiadas vezes, incompreendida. não alinhar com a maioria só porque sim, pensar e ter a nossa, bem fundamentada, opinião é muitas vezes confundido com arrogância. manter-se fiel, com qualidade de argumentos e não apenas por teimosia, é complicado: toda a gente gosta de aceitação e isso implica, muitas vezes, mudar de opinião. mantê-la e fundamentá-la com qualidade não é teimosia: é arte.

não estou com isto a dizer que nunca devemos mudar de opinião – lembrem-se que mudar é sinal de inteligência -, mas não a mudar só para, como dizem os americanos, go with the flow, é algo que devemos perseguir.

eu, felizmente, tenho o privilégio de pensar por mim e, mesmo que doa a alguém, ter a minha própria opinião. pena é que esse alguém seja, muitas vezes, eu.

não alinhem em carneiradas e pensem. um erro bem fundamentado é mais valioso que estar certo sem saber porquê.

adaptar.jpg

 

03
Abr16

...

esta noite sonhei que caminhava despido numa estrada de palha. seguia ladeado por muros e pilhas de entulho - construções do acaso. ao longe, não muito, o rumoroso embater da água nas rochas transformava o silêncio do calor em promessa de frescura. entre o lixo e as paredes (e até ao descampado no final da rua), podiam-se ver gafanhotos de fogo a saltar em euforia - estranho como não incendiavam a estrada: enfim, era um sonho: até as falhas são credíveis.

caminhava lentamente. devagar. quase monotonamente.

apesar de, no sonho, estar a andar há horas, o fim da estrada e o descampado estavam ainda muito longe. por causa das fogueiras que me perseguiam não restava nenhum sal no meu corpo. não importava: a fraqueza que sentia era nos músculos e não no sangue. a estranha e férrea vontade de chegar ao descampado era muito mais forte. nenhuma fogueira era mais vigorosa.

na vida real, provavelmente, teria medo de caminhar assim para o desconhecido. apesar de achar que é o medo que impossibilita a maioria das coisas boas, também acho que as teorias não alimentam. a coragem não é não ter medo. pelo contrário. só tendo medo podemos ter coragem.

 

Lixo-Entulhos-constru----o.jpg

 

03
Abr16

avc-r

Sem entrar em grandes detalhes, a técnica baseia-se no uso de umas proteinas para regenerar as células que são atingidas pelo AVC.

Já lá vai muito tempo de imobilidade; muito tempo de inércia; muito tempo de simples espera. Os milagres existem, mas convém trabalhar para eles. Está na altura de tentar fazer alguma coisa. Fazer como quem diz.

02
Abr16

...

uma das coisas que mais me incomoda é quase nada me incomodar. eu sei que é uma atitude um bocado egoísta, mas na minha situação acho que posso ser um pouco: não estou a prejudicar ninguém. só prejudico os que precisam do meu altruísmo e esses não me preocupam, mas incomoda-me pensar assim.

31
Mar16

avc-r

Porque vivemos por e para o amor, porque morremos, matamos, ferimos, curamos e salvamos por amor, pelo amor e no amor: é tudo o amor.

Porque corremos e paramos, compramos e vendemos, lutamos e desistimos, porque há guerras por amor e paz graças ao amor: é tudo o amor.

O amor é sentimento e não-sentimento, é matéria, é espírito e é mente. É forma e não-forma. O amor é tudo e sendo tudo o amor é também o nada.

Será isto o amor? Um Tudo-Nada?

 

 

37779-hi-rodin03.jpg

 

31
Mar16

avc-r

Somos tristes por amor, somos felizes por amor, sonhamos por amor e não dormimos por amor. Amamos pais, filhos, irmãos e amigos, livros, cinema, música e teatro, montanhas, florestas, praias e desertos. Amamos pessoas de outro sexo, do mesmo sexo ou de ambos, amamos uma, duas, três pessoas em separado e ao mesmo tempo também. Amamos o desconhecido, o conhecido, o sonho e a realidade. Amamos deuses, deusas, ninfas, musas, heróis, vilões, monstros, dragões e demónios. Em tudo encontramos amor e tudo pode ser objeto de amor.

 

 

 

30
Mar16

avc-r

Não tem sido nada fácil esta empreitada: recuperar sem a Margarida tem sido uma tarefa que não desejo nem ao mais cruel. Podia, no entanto, ser ainda pior. Tenho tido bastante sorte e, modéstia à parte, algum mérito. Por falar em modéstia, há quem me acuse de não a ter. Estão totalmente à vontade, mas deixem-me dizer a essas criaturas: estão a confundir imodéstia com amor-próprio e com não ter vergonha da realidade. E com isto vou apenas conseguir novas acusações.

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