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vinho tinto

vinho tinto

31
Out04

vem

despe-me da chuva,
façamos juntos a viagem ao centro da terra,
esquece o sol e as estrelas-do-mar,
vem:

segreda-me a babilónia toda ao ouvido,
como se uma língua elegante te dançasse,
segreda-me as asas frágeis de um anjo
e ouve as minhas mãos crescerem-te nos seios.

cala todo este silêncio,
cantemos juntos a ópera do vento nas oliveiras,
desfralda as magnólias na tua boca,
vem:

dá-me a crina de uma nuvem com os lábios,
como se uma chama te elevasse ao céu,
dá-me o som de um rio com os olhos
e um gemido de açúcar com a tua pele.

vem.

30
Out04

segredos *

A   m o r t e   d a   p o e s i aUma explosão nuclear na cidade dos sonhosincendiou até as metáforas mais distantes.A devastação é enorme, cruel, vermelhae, de pé, restam apenas algumas sílabas.Há poemas novos completamente destruídos,ficções em ruínas a desabar em confidências,pensamentos submersos em lamas lilasese frases em sangue rasgadas pelas reticências.Embora longe deste negro cenário terminal,o mar chora a morte prematura da poesiae as suas lágrimas brilhantes são fotõesque tentam desesperados penetrar a treva.Mas onde houver um rio e um homem vivo,onde houver mulheres e corpos de cristal,onde houver desejo e beijos de jasmim,há também uma fonte de palavras prontas.Sempre que morre um poeta, nasce uma flore das suas pétalas nascem as cores e o orvalho,e à sua volta nascem as mãos e os sorrisos,e da alva simbiose, nascerá de novo a poesia.* 14/04/2004

30
Out04

?

um dia escrevi o meu nome num guardanapo de vidro e coloquei-o sobre a mesa. caminhei com as serras ao lado da noite até ao meu ventre. prometi às árvores e às pedras o meu nome escrito num guardanapo de vidro. um dia caminhei com as árvores e a noite pelas serras até ao meu nome. um dia prometi às árvores e às pedras o meu ventre. um dia, o meu nome sobre a mesa e um guardanapo de vidro no meu ventre. um dia o meu ventre e as serras caminharam sobre o meu nome. as noites sempre foram o meu nome, o meu ventre sempre foi a minha serra de vidro, as árvores e as pedras sempre foram a promessa de uma serra no meu caminho. o meu ventre e as serras e a noite e o meu nome. e o vidro. e o vidro. e as árvores e as pedras. e um guardanapo de pedras sobre a noite no meu ventre. e eu. e eu. e eu?

24
Out04

a geometria minuciosa do silêncio

no último fôlego da insónia
depois do tumulto das línguas
e dos tentáculos de fogo

 

restante no livro Insónia

23
Out04

segredos *

nunca os dias foram apenas amendoeiras em flor,
mas também não se limitavam a relâmpagos silenciosos,
foram sempre uma liga de metais nobres e úlceras camufladas.

depois há a fusão do tempo com o presente e as tempestades,
há o que vai sendo esquecido e a erosão das lágrimas –
os vidros envelhecem e a nitidez perde-se por labirintos de facas.


penso-me.


talvez sejam as ínfimas sobras desses ventos de memórias mal semeadas,
a indesejada tinta vermelha nas folhas dos cadernos onde aprendo a ler.


* 11/04/2004

23
Out04

cumplicidades *

quando vi pela primeira vez, sob os teus pés despidos, o orvalho na relva transformar-se em lágrimas de luz, compreendi de imediato que sempre houve um sabor a mar nos teus passos. quase corrias, mas, aos meus olhos, os teus pés pisavam lentamente o verde e o esplendor era o orvalho que neles se fazia luz.

nesse dia, o ondular do teu corpo era como os segredos do vento sobre um campo de margaridas. brancas e amarelas, as margaridas ondulavam nas tuas ancas e todo o teu corpo ondulava como elas. quase corrias, mas o vento soprava lentamente sobre o teu corpo e todo ele era a lentidão do mar sob o sol de verão.

desde esse dia, os teus pés e o ondular do teu corpo são o meu orvalho nas manhãs de outono, são o meu vento, o meu mar e o meu sol de verão. desde esse dia, os teus pés e o ondular do teu corpo são o campo de margaridas onde adormeço para te sonhar. amo, desde esse dia até ao fim de todos os dias, os teus pés e o ondular do teu corpo.


* 20/04/2004

22
Out04

i n s ó n i a

tudo o que ficou por fazer,
está vivo esta noite no fantasma
que me habita o corpo despido.

o chão, de madeira encerada,
recolhe-me e faz-se cama,
enterro as unhas nos espaços entre os tacos
e sangro vontades,
mutilo desejos desordenados.

sou uma sombra nocturna
do sol que ardia na fonte das ambições,
nessa fonte que se recusa a secar
mesmo sabendo que a água não salva.

olho para cima e revejo-me no branco,
no vazio que impede a chuva de entrar.
sou eu, ali em cima, uma mentira,
branca,
vazia.

espalho os membros pela sala,
eis-me, um polvo de mil braços,
que se atrapalham na hora de comer.

21
Out04

6. apontamentos para memória futura

falcões enfurecidos estalam relâmpagos nas pontas dos chicotes e obrigam larvas que jamais serão borboletas a palmilharem ruas de esperma pelo sonho de voar

21
Out04

segredos *

não há como beber uma longa chávena de cacau lento
sem recordar os teus lábios de sol quando me beijam

com cada gota de calor reaviva-se mais e mais a memória
o lago em chamas onde navegas com a língua
parece inundar as planícies no meu corpo
e o amargo e doce de um arrepio percorre-me as costas
como se os dedos da tua boca caminhassem no meu peito

talvez por isso seja esta a única vacina para a noite
quando a lua morre antes que se canse a tinta de te amar


11/03/2004

17
Out04

ficções *

noitenão chove lá fora,mas todas as luzes se parecem com relâmpagos.eu tenho medo de relâmpagos.muito lentamente, sobre este medo, o vento. o vento lento. a espreitar da minha janela para o meu medo.depois a noite que é sempre noite. maldita noite,há momentos em que te preferia morta. a noitee as luzes, que se parecem com relâmpagos,a dirigirem o vento para a minha janela. e o medodos relâmpagos e do assobiar sombrio do vento.a noite a entrar pela minha janela. lentamente.ah malditas noites, iguais a todas as noites, iguais às trevas que eu sou também,eu que aprendi a destruir todas as sedas e a deixar-me devorar para comer,eu que descobri como transformar em água o sangue da poesia dos outros,se não aprender a amar-vos, quero-vos despidas, mortas e devoradas por cães selvagens! ensinem-me agora a amar-vos ou morram e deixem que brilhe o sol pela eternidade. o vento, devagar, a espreitar. a noite, lentamente, a entrar pela minha janela. o assobio sombrio do ventoe as luzes que se parecem com relâmpagos. o medoe o meu medo de relâmpagos. a minha janela e eu, sozinho, na minha cama com a noite. tanto tempo devagar.* 20/12/2003

Pág. 1/2

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