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vinho tinto

vinho tinto

06
Mai04

...

Herberto Helder


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

01
Mai04

maio 2004

 


lembras-te da lua...

lembras-te da lua ser um lago de braços abertos à ternura
e o sol um banco pintado pela loucura dos dias por acabar?
lembras-te dos candeeiros de rua serem espiões curiosos
e do silêncio ser tão breve como a sombra de uma águia?
lembras-te de um casaco ser a fronteira entre nós e o mundo
e do lusco-fusco ser só a antecipação de uma visão de nudez?
lembras-te de como era fazer encolher o tempo com um beijo
e de como alargávamos o espaço com um simples suspiro?
lembras-te de como se perdiam os pássaros nas tuas mãos
e de como te perdias nas asas dos pássaros perdidos nas tuas mãos?
lembras-te de um vidro ser a tremenda distância entre querer e poder
e de as árvores serem como testemunhas fotográficas de um sonho?

lembras-te?

agora somos a lua e o lago e a ternura do sol e dos dias,
somos uma só águia e somos silêncio, luz e loucura.
agora somos o mundo e somos a nudez e o lusco-fusco,
somos o tempo e o beijo e o espaço e os pássaros,
somos as asas e somos as mãos e as árvores e o sonho,
somos o vidro e a fotografia de não sermos ainda quase nada,
somos, enfim, a alvorada de uma primavera tão interminável.

 

6-5


manhã

há um mistério de espelhos envenenados
na voz dos ramos nus com que me abraças

 

6-5

ida e volta

        de cada lado            de cada lado           de cada lado
       há um sol             há um sol de cada lado             há um sol
   da subida             da subida há um sol de cada lado             da subida
no início            no início  da subida há  um sol de  cada lado        no início
no início            no início da descida há sombras por todo lado        no início
   da descida           da descida há sombras por todo lado           da descida
       há sombras            há sombras por todo lado           há sombras
           por todo o lado         por todo lado          por todo o lado


 22-5


 

ainda está sol lá fora

dentro destas tardes iguais
e deste vento enjoativo
e deste vento oleoso
bolachas de fibra e omega-3
escondem o orgasmo do desespero
enquanto me passeio entre uma janela
e a janela da pastelaria
onde as putas se preparam
para umas horas na porta do lado

falta pouco
falta pouco falta pouco

falta pouco

 

27-5



e se...

"... um dia conseguissemos escrever realmente o que nos vai na cabeça?"

A pergunta é do Pedro do microcosmos. Eu por vezes tento fazê-lo. É um óptimo exercício se estivermos bem dispostos. Neste caso, que já tem uns meses, guardei o resultado para não me esquecer de fazer este exercício apenas quando estou mesmo bem disposto :) cá vai:

«decidir a inexistência suicidar dois de mim chorar porque choro e porque quero chorar porque sim e porque não porque não? quero lá saber se sou o que não sou ou se não sou o que não compreendo ser posso escrever poesia que nem eu entenda se me apetecer sangrar o pescoço para cima da folha em branco e escrever com os dedos a poesia que quiser como estas palavras que não formam um poema choro apenas e deixo os dedos escreverem o que querem não há alma nenhuma nisto eloquente não sou nem quero ser sou apenas eu a escrever lágrimas revolta desespero gargalhadas loucura amor amor amor amor ahahahaHAHAHAHAH amor!! pois claro sempre o amor! eu acredito no amor eu amo tu amas ele ama e se todos amamos o amor existe eu amo mas agora não me apetece senão chorar o amor e o medo e o mar a engolir o jardim constantino mentira ou poesia picasso só conheço esse pintor até tenho uma tshirt com o guernica nunca escrevi tantas lágrimas como se escrevesse um poema a seguir diminuo a letra e se alguém louco demente quiser publicar isto que o faça com letras do tamanho da vontade de sorrir que tenho neste momento será que alguem vai ler isto até aqui? se calhar a verdadeira essência do poema está lá mais à frente... pensam... não está, se chegaram aqui desistam porque não está este não poema é isto mesmo eu a chorar palavras para não me afogar nas lágrimas não está este não poema é isto mesmo eu a chorar palavras para não me afogar nas lágrimas vou dormir se esperavam mais deste poema é porque também está na vossa hora de dormir. um resto de boa noite.»

Mas penso que o "realmente" a que se refere o Pedro é, na realidade , impossível de conseguir, há demasiadas cores sem nome e demasiadas formas não desenháveis. Mas é sempre um belo exercício tentar.

 

29-5


segredos

olho para cima, vejo apenas os músculos de um mar que já foi gente.
gostava de poder falar-lhe ao ouvido,
de lhe contar as aventuras de um pássaro que aprendeu a voar sozinho,
gostava de o abraçar e sintetizar-lhe na pele a fisionomia de uma recordação,
mas o sangue negro que o envolve escapa-se-me entre os braços e o medo,
o assobio de um ramo vestido de sombras
impede que a chama dos ventos cá dentro lhe segredem: calor.

não gosto de começar um verso com a palavra não, mas
não há como fugir ao som desafinado de um não
se entoado pelo vazio no vazio da memória. serás capaz de o entender?
a fuga das marés para a noite arrasta com ela todos os bichos,
mas o regresso das andorinhas ao alvoroço madrugador,
acorda de novo o tridente que tenho cravado nas pernas,
amarra-me ao pesadelo do silêncio e dos contos por acabar.

 

31-5

lfdsa


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