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vinho tinto

vinho tinto

01
Jan04

janeiro 2004

 

 

na descendência das flores nascem dias já terminados
e a poesia não é senão falsa modéstia

aqui escreve-se sem qualquer inteligência

as palavras não são para ser estudadas
são para ser amadas como se amam as cores

e não me falem em pontuação
pontos e vírgulas uso-os quando e se eu quiser, quem me impede?

 

2-1

 

 

hoje este é o meu desafio
amanhã deixará de o ser se não o cumprir

e depois?
quem se importa se nem a mim me preocupam os sucessivos fracassos.

7-1
 
uma carta para ti, minha amiga



quase com o despertar das pérolas do desejo,
no tempo das primeiras serenatas de álcool e tabaco,
descobri também a pureza impetuosa da inocência:
um corpo não era um corpo mas o sol que o aquecia.

nesse tempo, consegui amar. lembras-te?
consegui amar-te.

hoje sou um monstro já sem amor minha amiga,
o que hoje faço,
com o corpo que sobrou depois de ti e de todas as outras,
não é amar.

tenho este poema como segredo
e não precisava de o escrever,
precisava de sussurrar-to lentamente,
como costumávamos fazer na idade da matemática.
lembras-te do poema que te escrevi?

precisava que os teus braços
me ensinassem novamente a escrever
apenas para duas pessoas,
sem pensar no que pensará quem lê,
escrever apenas para sentir o calor que sentia quando te lia ao ouvido.

precisava apenas de amar alguém com a inocência com que te amei.
talvez nem precisasse de o escrever. lembras-te como era?

11-1
 

posso passar aqui toda a noite
a fingir a poesia nas palavras que escrevo,

mas o mais importante é que talvez não o faça.

12-1
 

um dia o mundo saberá que sou eu que escrevo os meus segredos.
pergunto-me, será finalmente esse dia a morte do meu?

12-1
 

como facas que se espantam ao penetrar carne macia,
palavras sem piedade a ferir animais surdos e mudos.

no fim, não haverá um delta na foz, apenas escuridão.

13-1

 

Hoje, saí demasiado tarde do trabalho
(já não me lembro porque lá fiquei tanto tempo).
Na companhia de uma primeira cerveja, olho a noite

(o fogo respira as entranhas da cidade,
dois cães disputam entre si os últimos restos,
dois restos verbalizam ódios no último semáforo livre)

e viajo para o único sítio onde a poesia me acontece,
para o abismo absurdo, para onde mora o medo de cimento
de um dia descobrir que já não sei quem sou.
Peço uma segunda cerveja. Lá fora, a noite, fria,

(cá dentro, o aquecimento e os olhares de mulheres desconhecidas,
o chilrear dos copos e a simpatia fingida a fumar por trás do balcão)

prossegue rapidamente sem mim, mas ninguém se importa.
Volto a mergulhar no sangue e no meu sangue.
Para que me convençam que sou o que digo ser,
faço das palavras minhas escravas, chicoteio-as,
obrigo-as a dizerem apenas o que quero ouvir.
Um dia, sei-o, serão elas a verga de salgueiro
que outros usarão para me rasgar a pele,
enquanto me perguntam: valeu a pena mentires-te?

(Mas, entretanto, gosto desta mesa de madeira mal encerada
e de observar os semáforos pela janela meio embaciada.)

Quando aqui venho, nunca estou sozinho,
há sempre um ou outro cadáver existencialista,
a lembrar-me que agora os valores são outros
e que estou completamente fora de moda.
Mas eu não quero estar na moda, quero apenas compreender(-me).
É isso que não deves fazer, procurar respostas era para o meu tempo.
Mas tu estás morto, eu estou aqui e sufoco(-me).

(Excita-me esta mulher que, de costas para mim,
espreita por cima do ombro, enquanto afasta o cabelo de ouro,
num gesto demasiado lento para ser verdadeiro.)


17-1

 

 

Eu não existo todos os dias.


19-1

 

Estou farto de ser genial, de ser bom com os números,
com a física e a jogar futebol. Estou cansado de saber escrever,
de ser alto, moreno e magro e de ser bom com computadores.
Sufoca-me ganhar quatro vezes mais que a média nacional,
desespera-me ter muitos e bons amigos e destroi-me ser amado.

Um dia, deito tudo fora.

Alugo uma casa numa aldeia distante e, enquanto houver dinheiro,
fecho-me no quarto a ver big brothers e filmes pornográficos,
a comer porcarias, a fumar, a beber e a masturbar-me até adormecer.
Quando o dinheiro acabar, mato alguém que não faça falta
e vou viver às vossas custas. Não é muito diferente do que faço agora.

PS: Metade do que escrevi é mesmo verdade.

20-1
 

nos vidros, com os dedos molhados pelas tuas palavras,
desenho lentas respirações na condensação do silêncio.

será pecado desejar escrever um verbo nos teus seios?

 
22-1

 

tenho andado ocupado
(com a minha vida verdadeira)

hoje voltei porque há muito tempo não me via.

 

 26-1

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